domingo, 31 de outubro de 2010

Foi o caos em Lisboa

Um rio de água turva cobriu a Rua das Portas de Santo Antão, alagando dezenas de lojas, arrastando caixotes do lixo, mesas e cadeiras e quase submergindo vários carros. As protecções metálicas que alguns comerciantes mais lestos ainda foram a tempo de colocar à porta de pouco ou nada serviram, tal era a força da água que corria impiedosamente por esta rua de Lisboa abaixo.

Isabel Rodrigues era, ao final da manhã, o rosto da desolação. Com a voz embargada e os olhos cobertos de lágrimas, a gerente de uma loja de produtos de higiene e cosmética olhava impotente para as dezenas de artigos tombados das prateleiras. Perfumes, champôs, sabonetes, tintas para o cabelo e produtos de limpeza precipitavam-se uns contra os outros, boiando no lago em que estava transformado o chão da loja.

"Isto foi de um momento para o outro", dizia ainda incrédula Isabel Rodrigues, contando que foram momentos de verdadeiro pânico aqueles que viveu ao ver-se rodeada de água e incapaz de sair para a rua. "Eu gritei socorro, socorro e aquelas senhoras disseram-me para ir para ali", recorda molhada até à cintura, apontando para as funcionárias do INATEL, que do outro lado da Rua das Portas de Santo Antão varrem verdadeiros lençóis de um líquido acastanhado para a rua.

"Vassouras, alguém tem vassouras?", pergunta uma delas de pescoço levantado e olhos postos nos andares superiores dos prédios, a cujas janelas assomam meia dúzia de curiosos com ar pasmado. Cá em baixo há dezenas de pessoas com esfregonas na mão, pés descalços ou cobertos por sacos de plástico, mesas e cadeiras tombadas, lama e pedras da calçada arrancadas do chão. Os funcionários da câmara fazem o que podem, levantando sarjetas e retirando do seu interior pás cheias de porcaria.

"É sempre assim nesta zona. Desde que chova muito é sempre assim", diz Manuel Sousa, que há 42 anos trabalha na Ginjinha Sem Rival e já perdeu a conta às inundações que teve de enfrentar. "Entrar a água entra sempre, não há hipótese nenhuma. O melhor é esperar que esvazie e depois limpar", diz com uma tranquilidade que contrasta com o caos instalado à sua volta.

E quem fala nesta artéria fala em praticamente toda a Baixa, que ontem ficou irreconhecível. O Rossio esteve alagado, obrigando ao encerramento da estação de metro, acontecendo o mesmo com o Terreiro do Paço, Praça do Município e Campo das Cebolas. A Avenida da Liberdade chegou a estar cortada ao trânsito e na vizinha Rua de São José a chuva que jorrou colina abaixo fez estragos significativos, levantando o alcatrão.

A forte chuva que caiu ontem também causou uma "grande perturbação" na circulação dos transportes da Carris, em especial nas suas carreiras de eléctricos, devido a inundações e acumulações de detritos que segundo um comunicado da empresa deixaram muitas artérias "intransitáveis". Na Assembleia da República, que sofreu obras há pouco mais de um ano, registaram-se pequenas infiltrações na sala do plenário.

Também abalado foi o fornecimento de energia em várias áreas da cidade, devido à inundação de alguns postos de transformação eléctrica, situação que persistia à hora de fecho desta edição. Afectadas foram zonas como a Avenida Gago Coutinho, o Rossio, a Rua de Santa Justa, a Alameda D. Afonso Henriques, Arroios e Santa Marta. Segundo o Instituto de Meteorologia o pico de precipitação em Lisboa verificou-se entre as 10h e as 11h, chegando aos 39 litros por m2. Um valor que fica aquém do mais alto alguma vez registado na cidade numa hora: 51,5ml, a 18 de Outubro de 1997. Só por comparação com o que aconteceu ontem, no temporal da Madeira em Fevereiro, caíram no Funchal 132 litros por m2.

Como sempre acontece, Alcântara foi ontem uma zona particularmente martirizada pelo temporal. Que o digam os comerciantes do largo junto à estação ferroviária de Alcântara-Terra, que já se habituaram a ter sempre à mão uma placa de metal para tentar travar o caminho da água. Menos preparados para a inclemência do tempo estavam os condutores que vieram a descobrir os carros que tinham deixado estacionados praticamente submersos.

"A água chegou até aqui assim", descreve Albano Pereira, dono de uma loja de reparação de electrodomésticos, apontando para uma marca na parede com uns 60cm de altura. Um pouco à frente, Vasco Neves varre com vigor a água que lhe entrou de rompante pela porta adentro, enquanto vira do avesso sapatos encharcados e atira para um saco do lixo aqueles que lhe parecem irrecuperáveis. "Isto foi em segundos. Não há nada a fazer. É deixar a água entrar e depois pô-la na rua", conclui com uma resignação de meter dó. com Nuno P. Chorão

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Feira Popular fechou há sete anos e continua abandonada

Sete anos após o encerramento, o recinto da Feira Popular de Lisboa, em Entrecampos, continua abandonado. Os antigos feirantes não escondem a mágoa e querem discutir com a Câmara um novo parque de diversões. "Excelente" era voltar ao local, dizem.

Inaugurada em 1961, a Feira Popular de Lisboa funcionou até ao dia 5 de Outubro de 2003, altura em que o executivo municipal presidido por Santana Lopes encerrou o recinto e deu início a um processo que se arrasta e parece não ter fim à vista.

As diversões desmontaram-se e muitas delas foram para a sucata. Centenas de pessoas – ninguém sabe exactamente quantas – perderam o emprego. A cidade ficou sem um dos seus principais recintos de lazer mas, em contrapartida, ganhou outra coisa: um terreno sujo a céu aberto com uma colónia considerável de ratazanas e vestígios de prática de prostituição e consumo de drogas pesadas.

“Foi tudo derivado da loucura de um indivíduo”, comenta, ao JN, António Luís, um dos empresários que mais se dedicou à Feira Popular, tendo sido proprietário de divertimentos como a montanha-russa, o comboio fantasma, a grande roda, o twister ou, entre outros, as pistas de carros. Hoje, António Luís, 61 anos, confessa a mágoa que se lhe estremece no peito de cada vez que pensa no terreno ao abandono. “Você acredita que eu até me desvio só para nem passar lá perto?”, interroga, imaginando que o ambiente daquele terreno em Entrecampos deve ser agora “medonho”.

Tal cenário foi confirmado ao JN por moradores da zona. Recentemente, o presidente da Câmara, António Costa, disse à agência Lusa ter “alguma pena” de ainda não ter recebido qualquer proposta ou projecto para uma nova feira popular na cidade, ali ou noutro local. A localização “dependerá do tamanho”, apontou o autarca.

O presidente da Associação Portuguesa de Empresa de Diversões (APED), Luís Fernandes, disse ao JN que, recentemente, contactou a Câmara Municipal de Lisboa para solicitar “uma reunião urgente” com o intuito “de perceber até que ponto o executivo está disposto a fazer uma cedência de espaço”. “Estamos ansiosos que isso aconteça”, sublinha o responsável, revelando que será fácil reunir um conjunto de empresários “com espírito empreendedor e dispostos a avançar”. Na sua óptica, voltar ao recinto de Entrecampos “seria excelente”. “Seria bom para a cidade, para o país e para o turismo”, rematou.

“A feira tinha o condão de dar vida aquela zona de Lisboa”, destaca o responsável, para quem “aquele pequeno mundo acabou graças aos políticos deste país”. “Hoje vejo toda a gente muito triste quando se fecha uma fábrica com 30 pessoas, mas ali trabalhavam quase mil. Aquilo era uma fabrica, só não tinha era tecto”, acrescenta o empresário, antes de assegurar que “90% das pessoas que lá trabalhavam estão hoje paradas”.

“Até custa olhar, é muito triste”, confessa, por seu turno, José Antunes, antigo trabalhador da feira e que hoje vai sobrevivendo com pistas de carrinhos de choque em romarias pelo país fora. “Até os países menos desenvolvidos já têm feiras populares. Só no nosso país é que não há. Só há diversões efémeras em festas, do monta e desmonta”, desabafa. Além “dos empregos que proporcionava”, recorda “a alegria que dava às pessoas, sobretudo às crianças”. “Nem sei como é que deixaram acabar aquilo”, remata, confessando-se “ainda hoje incrédulo”.(JN)